Esporte que nos faz lembrar a bravura dos Três Mosqueteiros é uma excelente alternativa para desenvolver tanto o físico quanto a inteligência

Atletas jogando esgrima - crédito da foto: Ana Cristina Basei
Ana Cristina Basei
Parte do encanto, do charme e da coragem que temos vivos em nossas memórias da grande história de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros – que, no fins da contas, eram quatro – vem das agitadas e bravas lutas narradas ao longo do livro e dos filmes que se seguiram. Longas disputas de movimentos rápidos e o tilintar de espadas são cenas épicas e poéticas, símbolos de magia e bravura. O mistério e a graça do duelo de espadas vêm de um esporte milenar: a esgrima. Em Porto Alegre, existe o clube que há mais tempo tem a esgrima em seu quadro de esportes dentro do Brasil. A Sociedade Ginástica Porto Alegre – Sogipa – comemora em 2010 os 125 anos de prática desta modalidade esportiva.
O clube, com mais de 140 anos de história, conta atualmente com 14 atletas esgrimistas que competem regularmente em níveis regional e nacional, sendo que sete deles também participam de competições internacionais. Além disso, na Sogipa, através do pagamento de uma mensalidade, é possível aprender, ter aulas e praticar o esporte sem fins de competição. O professor e Técnico de esgrima no clube, há onze anos, é o cubano Juan Velásquez. Com mais de quarenta anos dedicados à esgrima, o professor Velásquez, com seu português “bastante espanhol”, fala com entusiasmo do esporte que considera completo. “Para praticá-lo são exigidos excelentes preparados físico e mental. A esgrima aumenta e ordena as faculdades do homem”, ensina.
Segundo ele, quatro características são essencialmente ligadas ao esporte: força, velocidade, resistência e flexibilidade. O esgrimista precisará sempre dispor de um bom preparo físico, já que as disputas são constituídas de muita circulação do corpo e agilidade, e de precisão nos movimentos. “O atleta que quiser vencer, necessita pensar bem e rápido. O toque da espada, necessariamente, deve ocorrer no lugar certo e na hora certa. Não fazer nem antes, nem depois, o objetivo é ser exato”, explica o Técnico. (saiba mais sobre o mestre Juan Velásquez na matéria de perfil)

Técnico Velásquez e esgrimistas da Sogipa - crédito da foto: Ana Cristina Basei
Concentração e criatividade
Leonardo Krause é um dos atletas do clube. O garoto de apenas 17 anos já é experiente na esgrima. Ele treina e participa de competições desde os oitos anos e hoje já joga com o Sabre, espada que proporciona a disputa mais rígida. Leonardo conta que não por acaso iniciou no esporte. “Meus dois irmãos mais velhos também praticam desde muito pequenos. Eu tive essa boa influência deles, pois a esgrima é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. É um esporte muito ativo e diferente. Isso me atrai”, afirma o jovem.

A partir deste semestre Leonardo teve que diminuir o ritmo de treinos. Com a entrada para a faculdade, agora são apenas três vezes por semana jogando esgrima na Sogipa. Apesar de não terem semelhanças aparentes, o calouro pode agregar aos estudos no curso de Jogos Digitais, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), as características que já possui como esgrimista: concentração e criatividade.
A mãe de Leonardo, Nilda Kruase, autua como coordenadora de esgrima no clube há 17 anos e também como vice-presidente da Federação Rio-grandense de Esgrima. Ela que não é praticante do esporte, conta que ligou-se a ele por conta dos filhos. “Meus dois filhos mais velhos, Ricardo e Maurício gostavam de espadas e lutas quando eram pequenos e insistiram para aprender esgrima. Mais tarde, o Leonardo também quis praticar e eu sempre os acompanhei”, explica.
Hoje, a esgrima é algo importante em sua vida e para o qual Nilda é muito grata. “Este esporte me ajudou a educar meus filhos e os encaminhou para o lado certo da vida. Ele ensina a lidar com derrotas, a ter persistência e a superar desafios”, justifica.

Esgrimistas em treino - crédito da foto: Ana Cristina Basei
A tradição espadachim
Esgrima é o nome dado ao combate em que são utilizadas armas brancas para atacar e defender-se. A principal condição para esgrimir corretamente é tocar o adversário sem ser tocado, através de movimentos ordenados. Os adeptos deste elegante esporte dizem que a prática da esgrima é uma arte. Atualmente, existe apenas a esgrima esportiva, sendo esta dividida em três diferentes tipos de armas: espada, florete e sabre, representando os antigos armamentos utilizados em combates e treinos.

Armas da esgrima: Espada (E), Florete (C) e Sabre (D) - crédito da foto: Ana Cristina Basei
O objetivo é tocar o adversário com a arma sem ser tocado. Por meio de sensores colocados nos uniformes dos lutadores e ligados a um painel eletrônico, o árbitro acompanha os golpes realizados e recebidos. Cada vez que um esgrimista toca o colete do adversário é marcado o ponto eletronicamente. Ganha o combate, quem que somar mais pontos.
De acordo com cada espada, o que varia são tipos de toque e os locais que podem ser tocados. A espada e o florete, que medem 1,10m, podem ser usados no combate somente para atingir o adversário com a parte da ponta. O esgrimista ganha pontos, quando toca a região do tronco do adversário com o florete. A espada pode ser usada para atingir qualquer parte do corpo do adversário. Já o sabre (com até 1,05 metro) pode ser usado para atingir, com a ponta ou lâmina, a região da cintura ou acima.

Atleta mostra a espada e o fio com sensores elétricos que fica preso ao corpo durante os combates - crédito da foto: Ana Cristina Basei
O número de toques para apontar o vencedor varia com o tipo de disputa. Se for classificatória, vence quem der cinco toques em três minutos, ou ficar quatro minutos sem ser atingido. No caso de competições eliminatórias, vence quem der 15 toques, ou ficar nove minutos sem ser tocado e a prova é dividida em três tempos de três minutos. Terminando empatada, a luta vai para um assalto decisivo, de um minuto, e caso o empate continue, o vencedor será apontado por sorteio. Para ser um bom espadachim, o atleta precisa ter muita concentração e saber tomar decisões rápidas. Uma pequena desatenção e lá vem o toque: ponto para o adversário.
A pista de esgrima possui de 1,5 m a 2 m de largura e 14 m de extensão. Há uma linha que divide a pista em dois lados iguais. No fundo de cada lado há uma área (de 1,5 m a 2 m) em que o esgrimista atacado não pode entrar.
Proteção

A máscara metálica é um dos equipamentos de proteção obrigatórios para a esgrima - crédito da foto: Ana Cristina Basei
Os esgrimistas usam roupas especiais para o combate, com o propósito de evitar ferimentos. Máscara metálica, luvas e colete protetor são equipamentos obrigatórios para os homens. Além destes equipamentos, as mulheres usam também protetores para os seios. Os atletas vestem um colete com fios de metal (para o florete) e um similar com mangas (para o sabre), e a máscara é de material inoxidável, para poder circular os pontos elétricos. Os competidores são sempre identificados pelo sobrenome, que fica impresso na parte de atrás do uniforme, nas costas.
Competição
Conforme o professor Velásquez, doze anos é uma boa idade para iniciar a prática do esporte. Um atleta somente ficará pronto para disputar em nível internacional entre cinco e dez anos de treinos. “Cada jovem tem características que podem ser bem aproveitadas no esporte. Mas somente após uma boa base física e técnica, é possível introduzi-los em competições de esgrima”, conclui.

Técnico Velásquez indica muita preparação antes de inserir esgrimistas em competições - crédito da foto: Ana Cristina Basei
As categorias para competições são: infantil, pré-cadete, cadete, juvenil, livre e veteranos. A FIE (Federação Internacional de Esgrima) realiza competições e eventos em nível internacional. No Brasil, a CBE (Confederação Brasileira de Esgrima) organiza os campeonatos nacionais.
Como praticar
Para quem estiver interessado em conhecer mais e até praticar esgrima na Sogipa, os contatos telefônicos são (51) 3343-0067 e (51) 3325-7346.
Segundo Nilda Krause, hoje não mais de 300 atletas praticam esgrima no Brasil. Além de exigir muita dedicação, a modalidade tem uma série de detalhes quanto aos uniformes, espadas, máscaras e campo de disputas que são obrigatórios em qualquer competição e tornam seus custos um pouco elevados.
Confia abaixo uma tabela de preços dos itens utilizados pelo atleta esgrimista:
| |
Preço |
Para sabre |
Para espada |
Para florete |
| Arma sabre |
150
|
X |
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| Arma espada |
135
|
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X |
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| Arma florete |
110
|
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X |
| Máscara de sabre |
230
|
X |
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| Máscara florete e espada |
180
|
|
X |
X |
| Uniforme |
415
|
X |
X |
X |
| Protetor interno |
120
|
X |
X |
X |
| Fio de corpo |
25
|
X |
X |
X |
| Fio de máscara |
15
|
X |
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|
| Jaqueta elétrica sabre |
200
|
X |
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| Mangueta elétrica |
25
|
X |
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| Luva |
60
|
X |
X |
X |
| Colete elétrico de florete |
120
|
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X |
| Protetor de seios (fem.) |
40
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Preços médios em dólar.
-
A cotação corresponde a materiais que estão de acordo com as normas da Federação Internacional de Esgrima para competições de alta segurança. Materiais destinados a treino podem ser encontrados a custos mais baixos. (fonte: Nilda Krause)
História da esgrima

Esgrima: arte dos duelos medievais virou esporte - crédito da foto: Ana Cristina Basei
Considerada a arte marcial do Ocidente, a esgrima remonta a dois mil anos antes de Cristo. Apesar de não ter um país considerado o oficial de sua origem, sabe-se que o berço é europeu. Ela foi reconhecida como esporte em 1874, quando surgiu a primeira escola. É uma das quatro únicas modalidades a terem participado de todas as edições dos Jogos Olímpicos da era moderna, começando em 1896, em Atenas. França e Itália dominam as ações no cenário mundial, tanto no masculino quanto no feminino. Nas Américas, Estados Unidos e Canadá têm alguma projeção internacional. Outros que também já obtiveram destaque são: Hungria, Polônia, Alemanha, Rússia além de Cuba e China.
Na Idade Média, além de seu caráter militar, era também uma ocupação nos castelos. Homens de alta nobreza praticavam a esgrima nos combates com armas brancas. O desenvolvimento da esgrima está ligado às guerras, torneios medievais, duelos em nome da honra. O aperfeiçoamento do aço, o surgimento da pólvora, e das armas de fogo, e, a proibição dos duelos, fez com que se tornasse um esporte, continuando a ser sendo praticada em salas d’armas. O objetivo da esgrima atual é preparar o praticante para demonstrações e campeonatos, já que o duelo está proibido em todo mundo.
Esgrima no Brasil
No Brasil, a esgrima começou no período imperial, pois, enquanto o Brasil era colônia, além de não haver a presença de Mestre d’Armas no país, também não existia interesse dos colonizadores na prática do esporte.

Aproximadamente 300 atletas praticam esgrima no Brasil hoje - crédito da foto: Ana Cristina Basei
Em 1909, é criado um curso de esgrima na Escola de Educação Física da Força Pública de São Paulo. Em 1922, é criado o Centro Militar de Educação Física, na Vila Militar, Rio de Janeiro, o que incentiva a vinda do mestre d’Armas francês Lucien de Merignac e, também, a criação de um núcleo de esgrima no Colégio Militar do Rio de Janeiro, por parte de Valério Falcão, instrutor do estabelecimento. O Exército Brasileiro contrata os serviços do mestre Gauthier, instrutor de esgrima da Escola Joinville le Point, da França, para ministrar esgrima aos militares no Brasil.
A União Brasileira de Esgrima se filia a Federação Internacional de Esgrima, e, em 1936, o Brasil participa dos Jogos Olímpicos de Berlim. Em 1937, é criado, pelo Exército, o Curso de Mestre d’Armas. Ele funciona até os dias de hoje, mantendo-se como o único do País.
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