Nos bastidores de um sonho

André Carvalho

Nem todo brasileiro sabe jogar futebol. A maioria de nós não sabe nem fazer embaixadinha. Porém, todo brasileiro pensa que seria um excelente técnico. Quando a seleção ou seu time do coração perde, todos sabem apontar os erros e que se fosse ele no lugar, as coisas seriam diferentes.

Mas para se tornar alguém no mundo da bola, não adianta ser bom, tem que ser muito bom, se dedicar e fazer escolhas desde cedo. Para isso, é necessário o apoio da família. Em alguns casos, a família é tão pobre que prefere que a criança vá jogar bola, assim terá mais chances na vida. O futebol ajuda crianças a não caírem no mundo do crime, do tráfico ou das drogas. Para algumas famílias, o futebol é uma salvação.

Há outras famílias, que acham que a criança pode até jogar bem, mas jamais cresceria no esporte. Ou, pior, pensam que o futebol não é futuro, que não foi pra isso que o filho foi criado. O certo é ele ir pra faculdade estudar engenharia, advocacia ou medicina.

Esse não é o caso de João.

João é um grande amigo meu que sempre quis jogar futebol. Desde pequeno já demonstrava uma certa intimidade com a bola. Ele não vem de uma família pobre, onde queriam que ele jogasse futebol para mudar de vida. Tampouco, uma família que dizia que os estudos eram mais importantes do que a realização do seu sonho. Pelo contrário. João tem uma família que sempre lhe apoiou, porém, sabia que para seguir este caminho, teria que fazer por merecer. E foi o que ele fez.

Por três anos jogamos juntos na escolinha de futsal Toque de Classe, do colégio. Nos torneios internos, João estava sempre entre os artilheiros do campeonato. Era um dos prediletos do professor.

Nesse período, a mãe dele me dava aulas particulares de matemática, em sua casa. Quando  terminava a aula, João e eu, jogávamos bola dentro de casa. O apartamento tinha um corredor grande e no final tinha um móvel que ocupava uns 80% da parede e como ficava centralizado, deixava 10% de parede sobrando de cada lado. Na sala, tinha um grande armário, e assim, fazíamos nosso gol-a-gol. Eu tentava fazer gols no armário e ele nos cantos da parede do final do corredor. Às vezes a gente quebrava algo e a mãe dele ficava furiosa. A solução era ir jogar futebol no vídeo-game.

Por sinal, até no futebol virtual o desgraçado era bom. Organizávamos campeonatos entre amigos, e ele sempre era campeão. Enquanto eu e a gurizada queríamos ir direto pra partida, ele ficava pelo menos dez minutos mexendo no posicionamento dos jogadores, escolhendo estratégias e montando táticas.

Quando entramos para o ensino médio, ele trocou a Toque de Classe pela escolinha do Inter. Queria ser centroavante, dizia, e sabia, que no futsal dificilmente cresceria profissionalmente. Sabia também, que como a maioria dos que querem ser jogador de futebol, tem predileção pelo ataque, teria se dedicar intensamente.

Em uma ocasião, João passou um ano todo se preparando para a semana de rachões do Inter e não perderia isso por nada. Os jogos aconteciam de manhã e na mesma época, estávamos em semana de provas que poderiam valer nossas vidas na escola. Seu pai, que acompanhava seu esforço , lhe autorizou a faltar as aulas.

Infelizmente, naquele ano, nenhum centroavante foi chamado. E pra piorar, rodou de ano. A sua sorte é que, como havia entrado um ano antes no colégio, a repetência não foi um problema em casa. E no futebol, ele teria mais um ano, o último, para dedicar-se ao esporte. Sua dedicação era tanta, que chegou a receber propostas do Juventude e de um time da Holanda, mas por sua pouca idade e pela paixão por sua namorada, achou melhor tentar tudo por aqui.

Parecia que a relação dele com a bola não ia ter jeito mesmo. Nos rachões do ano seguinte, João havia se saído muito bem. Em uma partida chegou a fazer quatro gols. Graças a isso, foi chamado para jogar duas partidas, semi-final e final, na seleção da categoria de 87/88 contra as seleções de categorias mais velhas.

Dos convocados para a seleção, ele já havia jogado junto com três. Era um time composto por 18 atletas, que revezariam ao longo do jogo. Quando o primeiro jogo começou, João estava no banco. Mas assim que entrou, com 18 segundos em campo, marcou o gol. Vinte minutos depois, deu assistência para um companheiro fazer outro.

Já para a final, o treinador achou melhor botar o João a jogar a partida inteira. Mas a disputa era muito acirrada. O jogo terminou 0×0 e foi para as penalidades.

Era uma tarde fria no Beira-Rio. Era aquele período de ventos fortes que marcam o fim do inverno e o começo da primavera. Nas cobranças de pênalti, João ficou com a responsabilidade de decidir o jogo: Se marcasse o gol, as cobranças continuavam; se errasse, seu time perdia e seu sonho acabaria ali.

Naquele instante, toda atenção estava voltada nele. Os olheiros queriam saber se era um jovem com sangue frio; seus companheiros e os atletas adversários, que compartilhavam o mesmo sonho, viam a realização deste, ou não, na ponta da chuteira do João; o goleiro que iria fazer de tudo pra não deixar a bola entrar; seus amigos na beira do gramado que torciam, não pelo time, mas por João.

No momento em que o juiz apita e João corre para a bola, seu pai, que assistia o jogo de trás da goleira, grita: “centroavante não pode perder”. Nesse instante, no momento em que a bola é tocada pelo pé de João, um repentino e forte vento sul chega, levantando a bola. Aquele que era pra ser o gol da salvação, foi um dos momentos mais marcantes da sua vida. A bola estoura no travessão.

Ao longo de muitos meses, segundo conta, não havia jeito de encostar a cabeça no travesseiro, fechar os olhos e não lembrar daquele lance.

Vai ver seu futuro não era mesmo jogar bola. Isso ele até já aceitou. Mas não desistiu do esporte. Ele pretende cursar Educação Física na UFRGS e se especializar em futebol, e quem sabe, possa virar um treinador de futebol.

Deixe uma resposta